09 setembro 2009

(...)

"Ev'ry Time We Say Goodbye I die a little..."

Despertou. Foi até a janela e viu o sol brilhando. Um dia lindo de primavera. Sua vista era perfeita: de um lado a avenida beira-mar, do outro um grande manguezal. As pessoas andando e fazendo seus exercícios matinais. O mundo girando e se preparando para um novo ciclo. Primavera, Verão, Outono, Inverno.

Abriu a porta. Foi até a sala e o viu ainda dormindo no sofá. O homem da sua vida. Por um momento perdeu a noção do tempo: de um lado as malas prontas, do outro as passagens. O relógio girando e contando o tempo sem parar. O mundo girando e se preparando para um novo ciclo. Primavera. Verão. Outono. Inverno.

Despertou novamente. Encontrou-o olhando para sí. O homem da sua vida. Eles não conseguiram sorrir. Por um lado tinham plena convicção de que ainda se queriam muito, por outro sabiam que a relação não aguentaria as pressões que existiriam. O mundo. As estações.

Abriu a porta do banheiro. Não conseguia falar, nem pensar... nada. Apoiou-se sobre a pia e não conseguiu abrir a torneira. E então, fez a única coisa que havia prometido que não ia fazer: Chorou. Compulsivamente. Sem parar. Como uma tempestade de verão. Em plena primavera.

"...when you're near there's such an air of spring about it..."

Olhou-se no espelho. Falhara novamente. Havia prometido não cair mais nas mesmas armadilhas. Havia prometido deixar o mundo andar sozinho e não se envolver nestas coisas de relacionamento. Mas, a presença dele aquecia e o inverno passado havia sido muito frio. Ouviu batidas na porta. Não teve coragem de responder. Abriu rapidamente a ducha e meteu-se embaixo da água. Queria que todas as estações fossem levadas. Queria que o tempo passasse como num filme. Queria não sofrer, novamente. Queria que o mundo rodasse, rapidamente. Queria. Queria. Queria, muito.

Despertou. A pele murcha indicava quanto tempo havia ficado ali. Por um momento havia perdido a noção do tempo. O mundo girando e se preparando para um novo ciclo. Primavera, Verão, Outono, Inverno.

Abriu a porta. Encontrou a sala vazia. De um lado o sofá, do outro a sala às escuras. Tentou entender o que acontecia. Um silêncio sepulcral. Lá fora, uma chuva fina, típica do outono. As pessoas com roupas pesadas e guarda-chuvas andavam rapidamente buscando o abrigo de suas casas. Outra vez o mundo. Outra vez o outono.

"...but how strange the change from major to minor..."

(...)




'Começo a olhar as coisas como quem, se despedindo, se surpreende com a singularidade que cada coisa tem de ser e estar. Um beija-flor no entardecer desta montanha a meio metro de mim, tão íntimo, essas flores às quatro horas da tarde, tão cúmplices, a umidade da grama na sola dos pés, as estrelas daqui a pouco, que intimidade tenho com as estrelas quanto mais habito a noite! Nada mais é gratuito, tudo é ritual. Começo a amar as coisas com o desprendimento que só têm os que amando tudo o que perderam já não mentem.'